segunda-feira, 24 de agosto de 2009

francisca.

O vento fazia as árvores dançarem e o céu azul era riscado por nuvens leves, brancas e vagas. Francisca comandava seu carro ao som de música das boas tocando no rádio – “Vivendo um milagre!”, comemorava.
Ela cantava e pensava no quanto a vida teria se reinventado pra ela. Quantas mudanças em tão pouco tempo – poucos pacotes de 365 dias lhe trouxeram responsabilidade, namorado, amigos gays, faculdade, bares, filmes, liberdade e videokês. Na verdade, passava o dia refletindo sobre todas as coisas, mas nesse dia ela pensava sobre metamorfoses comportamentais do tipo.
Seu balãozinho de pensamento foi então subitamente rompido pela voz estridente de algum locutor. Ele berrava promoção para concorrer a um passeio com os caras do NX Zero. Francisca pensou: “Quem quer conhecer esses caras? Até sei cantar uma canção ou outra, mas... Conhecê-los pra quê?”
Ela já sabia da existência de uma indústria cultural; já tinha estudado o revoltante do mundo e seus castelos de areia sobre ídolos de plástico já haviam sido todos muito bem enterrados.
Francisca via os “franjas pro lado” na rua e aquele drama existencial ambulante lhe promovia subidas de sangue à cabeça. Indignava-se com a prima de 15 anos que queria emagrecer a todo custo, mas sem academia e sem fazer dieta (Ah, meu deus!). Assistir, por 5 segundos, um episódio de Barney na TV era a concretização do fim dos tempos pra ela.
Entretanto, aquela gritaria no rádio sobre a chance imperdível de conhecer o NX Zero levantou escadarias de reflexão em seu percurso.
Ela lembrou do Brian - o queixudinho dos Backstreet Boys - e em como ele era lindo, as músicas eram emocionantes, os CD’s eram mágicos. A cada lançamento, uma nova surpresa deliciosa.
Riu sozinha relembrando das tardes infinitas de dublagem das Spice Girls e em como ela adorava ver o filme delas. Francisca não conseguia mais assisti-lo por 10 minutos! Backstreet Boys, hoje, estão velhos e, cantando, lhe dão náuseas.
Francisca imaginou então suas primas que, naquela época, deveriam estar brindando os 20 e, em como aquele amor pelas Chiquititas devia soar irritante.
Pensou nos velhinhos rabugentos e percebeu que eles não vão entender mesmo “Por que essa gente viaja tanto?!” ou “pra que tanta tecnologia?!”, seguidos sempre de “no meu tempo...”.
Francisca, simplesmente, riu. Tudo se encaixou e passou a fazer mais sentido.
O planeta não está de ponta cabeça e os desenhos animados não perderam a graça. Francisca cresceu.
Ela olhou ao redor e viu que parte desse crescimento é entender que a superação dos anos acontece pra cada um num único ritmo. Eles vêm e eles vão. Espalhando 15 anos enquanto espalham 87. Despejando inseguranças adolescentes enquanto derramam experiência e superação.
Concluído o raciocínio NX Zero, Francisca voltou à direção e mudou o pensamento para como ela precisa ser mais atenta ao trânsito.

2 comentários:

Regina Medeiros disse...

Parabéns Lola ! Fiquei feliz em saber que a Franscisca se reiventa o tempo todo e tem tanta consciência dêsse poder tão humano ! Parabéns pelo texto saborosamente reflexivo e sutilmente profundo.

... disse...

Lola, adorei seu texto: leve, fluido e consistente. Passearei por aqui mais vezes.

Obrigada pela visita e pelo carinhoso comentário.

Um abraço,
Maria.